Dei um paço à frente para entrar no apartamento nº 7, levantei os olhos ao entrar e de repente me veio uma lembrança que eu nunca tive, como se eu já estivesse naquele lugar. Como se eu tivesse vivido ali em algum momento. Ou presenciado algo ou iria presenciar naquele lugar. Veio-me uma estranha vontade de chorar, não sabia se era de tristeza ou de felicidade. Algo que doía a garganta, os olhos e o peito esquerdo com um palpite agudo que não podia aguentar. Larguei as malas naquele momento com uma precisão e no mesmo instante me veio uma dor forte na cabeça. Anita me olhava atônita como quem não estava entendendo nada.
- Você está bem? – Me olhou expressiva.
- Sim, foi só uma tontura! Acho que foi minha pressão, deve ter baixado! – menti.
- E por que está chorando?
- Apenas frescura, senti saudade de casa! – menti novamente.
- Credo! Do que sentiu falta? Da arrogância daquela sabe tudo ou do discurso falso moralista dela? – Disse Anita se exaltando – Às vezes não te entendo, garota!
- Já falei que não gosto que fique o tempo todo me chamando de “garota” – Ela tinha o dom de me irritar, acho que isso a satisfazia por hora. Anita queria se diferenciar da mamãe, mas na verdade agia como ela vez ou outra.
- Ok, me desculpe! Não precisa ficar assim, eu hein! Mas vamos deixar de lenga lenga e vamos começar a arrumar essa bagunça! Amanhã cedo o síndico vem aqui e temos que estar com tudo arrumado.
Franzi o cenho tentando encaixar as coisas, minha irmã não estava saindo de férias, pensei. Para quê mais ela estaria trazendo todas as nossas coisas, e iria dar-se o trabalho de arrumar as coisas para que o síndico do prédio viesse até aqui? Mesmo que fosse apenas para apresentar-se isso não seria necessário. Ele já poderia ter se dado o trabalho de nos receber, no mínimo. A menos que ela estivesse de mudança. Fiquei com medo de pensar em mais suposições e fui me apressando em busca de um quarto para mim.
O apartamento era simples e prático. Ao entrar podia-se ver a sala de jantar, que ficava no começo da sala logo no canto, ao lado esquerdo. A mesa de jantar era de vidro com uma pequena toalha bordada em cima, também havia um jarro simétrico com lírios dentro que ficava bem no centro. Ao lado da porta, um pouco mais afastado da mesa ficava uma espécie de bar, onde havia um balcão com diversas bebidas, copos e taças para drinks, e bancos altos para socializar.
Entrando mais à frente junto com a sala de jantar ficava a sala de estar, era um ambiente agradável. O sofá ficava de frente a uma estante, onde se encontravam livros, uma tv e uns enfeites interessantes com bonecas russas e budistas. Com certeza a pessoa que morava ou morou naquele lugar acreditava em coisas de outra cultura e religião. E na parede da sala havia uma janela enorme com cortinas longas, com a cor igual à de um sorvete de creme. A vista ficava de frente a um pequeno prédio de quatro andares, parecido com o prédio da frente que eu havia visto pouco mais cedo ao chegar. Também com varandas em cada andar, como este. Não se podia ver muito, pois o prédio impedia que pudesse ver algo mais além do que um pedaço da rua e todo o restante que minha visão conseguisse enxergar.
Avistei uns bares no final da rua que ficavam de frente a lavanderia da família Silva, da qual era chamada, pois estava escrito em uma placa. Naquele ambiente que me dava paz com as paredes quase brancas, sem vida. A mobília era de vidro e madeira escura, o que me levava a acreditar que alguma pessoa que estivesse passando por algo místico no auge da vida solitária morava lá, ou morou. Ou então apenas o dono do imóvel o decorou assim para que cobrasse mais caro, pois tudo me parecia muito sofisticado.
No lado direito havia uma porta de frente para a sala, onde ficava a cozinha. A cozinha parecia daquelas de programa de culinária, quase completa, pois a diferença era que ela era real e não um cenário de estúdio de filmagem. Era toda branca e tinha um balcão para preparar o que fosse. Atrás do balcão ficava um fogão seis bocas, e havia armários embutidos com as portinhas de acrílico de cor preta. A torneira era bem prática, tinha uma alavanca pequena que ao levantá-la abria e ao abaixa-la a fechava. A última vez que tinha visto uma dessas foi na casa da Fernanda, uma garota esnobe e riquinha que estudou comigo no segundo ano do ensino médio a um tempo atrás.
O que me parecia era que quanto mais olhava os compartimentos do imóvel mais me levava a acreditar que algum ricaço morava lá. Ao voltar para sala havia um corredor ao lado esquerdo com cinco portas onde ficavam os quartos. Fui andando com as malas, pois já não aguentava mais. Estava cansada da viagem. Minha irmã escolheu um quarto que ficava do lado esquerdo, depois de uma porta. Onde se encontrava suas coisas e ela às decidindo onde guarda-las. Anita é bem indecisa o que a diferencia da dona Lívia e de mim.
Abri a primeira porta que ficava do lado do quarto da Anita, lá ficava o banheiro o que me fazia subtrair as opções de quartos. Abri a primeira porta do lado direito e ao entrar fiquei deslumbrada do quanto o quarto era bonito. Fiquei boquiaberta de tão encantada que eu estava, tanto que deu até má vontade de olhar o restante de portas que existiam no corredor. Pois já havia me decidido qual seria meu quarto.
- Então, te agradou? – Disse Anita me pegando de surpresa com meu deslumbre.
- Que susto! Você tá brincando comigo? Anita, ele é perfeito! – Recompondo-me do susto.
- Garota assustada, relaxa! Eu te falei que você iria gostar! Eu te conheço muito bem, garota! – Disse ela, me chamando da forma que detestava de propósito. Ignorei-a, pois já não me importava naquele momento em que me encontrava.
- Temos dinheiro suficiente para pagar esse apartamento durante um mês? – A interroguei invasivamente e desconfiada.
- Não vamos falar disso agora, você me prometeu arrumar tudo antes! Não iriei abrir a boca antes que arrume a sua mudança! Vou fazer algo para comermos, está ficando tarde e não quero ouvir reclamações da minha comida.
- Pode deixar... Até porque quando estou com fome como até pedra! – Disse caçoando-a por vingança.
- Fique sabendo que minha comida não leva pedra, garota.
Saiu pela porta esbarrando em mim e derrubando minhas malas e mais uma vez me chamando para a briga, mas estava sem nenhuma vontade de sequer mover um músculo do meu corpo e nem ao menos respondê-la. Estava apenas querendo observar todo aquele lugar que me atravessava como um fantasma atravessa a parede. Perguntando-me como iria ser os dias diante do que estava à minha espera. Do que poderia acontecer se eu desse mais um passo para frente ou jorrasse uma palavra para alcança-la.
O quarto era bem bonito, ao lado esquerdo ficavam umas prateleiras de madeira clara, quase branca, embutida na parede e lá havia livros de autores desconhecidos de minha sabedoria. Havia uma escrivaninha que tomava a metade da parede. A parede era toda branca como o resto do imóvel, deduzi. No meio do quarto, ao lado da porta ficava uma cama de casal, que por sinal era muito macia. E do outro lado do quarto ficava o guarda-roupa de cinco portas embutido na parede.
O guarda-roupa era bastante espaçoso, não conseguia entender para quê alguém precisaria de algo tão grande e espaçoso. Com ele havia uma surpresa, pois a quinta porta era um banheiro. O banheiro não era muito grande, mas o suficiente para caber uma pia com armários, um Box e uma banheira no final. Admiti para mim mesma que dessa vez minha irmã tinha acertado na escolha, embora fosse difícil de cair à ficha que eu iria passar um mês naquele paraíso.
Não havia janelas no quarto, mas havia duas portas de vidro que estavam escondidas debaixo de cortinas pesadas. Elas se abriam empurrando-as para lateral de cada lado, que dava acesso a uma varanda com duas parte uma coberta e a outra descoberta, com três poltronas e uma mesinha de centro. Era um lugar perfeito. E nunca havia visto algo igual, embora faltasse vida. Conclui que o dono daquele apartamento era alguém que não gostava de expressar-se ou então era desiludido com a vida, com flores e com as cores.
Ao mesmo tempo em que eu estava feliz de estar ali, estava preocupada por ter embarcado nessa aventura. Pois me parecia que não tínhamos dinheiro para pagar por aquele apartamento. Mesmo que fosse apenas para passar um mês. Estava quente e escurecendo, deixei as portas da varanda aberta para que entrasse a luz do pôr do sol e vento por acaso. Comecei a desfazer as malas e arrumar tudo, antes que minha irmã viesse aqui de surpresa outra vez e me perturbasse. Estava tão cansado que me deitei na cama e a única coisa que meu corpo desejava era descansar por alguns minutos. Fechei os olhos e permiti-me a tirar um cochilo.
Com um borrão na memória, despertei desconsolada, meu corpo estava flutuando no ar, não conseguia mexer meus braços e pernas. Estava como uma estátua. Desesperei-me e com todas as forças tentei me mexer, sem sucesso. Estava dura como uma pedra. Assustei-me, não conseguia falar, não conseguia ouvir nada tentei chamar por Anita, mas não conseguia. Meu coração acelerava a cada susto que levava, sentia calafrios que pareciam agulhas espetando no centro das minhas costas e iam deslizando até a minha nuca, sentia pontadas na ponta do dedo do pé. Quanto mais tentava gritar, mais estranha e rouca soava minha voz, ninguém aparecia.
Ouvi um barulho estranho, eram as cortinas agitadas com o vento que entrava audaciosamente pela varanda. Tudo não havia passado de um sonho estranho, acordei com um alívio daqueles que se sente quando se está com medo. Levantei-me ainda digerindo o susto, minhas pernas tremiam e não sabia se era do medo ou porque estava um frio desconsolante. A escuridão tomava de conta do quarto, o rádio relógio marcava oito e meia da noite. Havia cochilado por três horas, o que parecia ter sido bem menos, pois foi tudo tão rápido que poderia jurar que havia acontecido de verdade. Fui até a varanda respirar um pouco de ar que havia estado ausente desde cedo. Eu estava sufocada.
Ascendi um abajur pequeno que havia no canto da varanda, que iluminava o suficientemente uma parte da varanda com uma luz fosca. Ao observar o prédio que ficava de frente a minha varanda havia um quarto que parecia estar tão próximo que se podia ver como era por dentro, uma parte dele. A varanda era menor que a minha, havia uma mesa, duas cadeiras de descanso e um violão encostado na parede. A porta estava aberta e se podia ver a parede branca do quarto com umas pinturas surrealistas penduradas, havia respingos de tinta e um cavalete com uma tela em branco, tintas, pincéis de diversos tamanhos e outros materiais que estavam em cima de uma escrivaninha redonda que ficava próximo a varanda.
Via-se a ponta da cama e uma pilha de livros no chão ao lado com uma caneca azul em cima. O quarto estava escuro, apenas com um feixe de luz que vinha do além. Deveria ser um abajur, que ficava longe do meu alcance. O quarto sem dúvidas tinha vida própria. Imaginei um homem com a cara de um escritor falido, viciado em café e em cigarros, pois havia um cinzeiro em cima da mesa da varanda e que aos finais de semana tomava do melhor conhaque e do melhor baseado. Que através dos seus delírios surreais criava suas obras sem lembrar de como as pintou. Ou então morava apenas uma mulher divorciada, sem filhos e iludida com as cores.
Propus-me a ligar a luz e terminar de organizar algumas das minhas coisas que ainda estavam na mala, em cima da escrivaninha que mais parecia uma mesa de jantar para seis pessoas. Ao terminar meu estômago gritava como se estivesse brigando comigo. O cheiro de comida invadia todos os compartimentos do meu quarto e os dos vizinhos também, pensei, pois estava de matar qualquer um. Rendi-me e fui sem perder mais tempo à cozinha, a mesa estava posta. Ao chegar ao destino de tanta matança alimentícia, na cozinha minha irmã estava concentrada lendo um livro com a capa amarela e com nome vermelho, se chamava “Da vida à vivê-la”.
- Nada mal! – Falei pegando-a de surpresa.
- É apenas lasanha congelada, estava na geladeira! Acredita nisso?
- Eu não acreditava em muitas coisas, até hoje. Como esse apartamento e como conseguiremos pagá-lo. – Cutuquei-a esperando alguma reação, mas Anita não se deixava levar.
- Depois falamos sobre isso, porque eu não estou me aguentando em pé de tanta fome! – disse escapando. E retrucou. - Em vez de ficar me olhando com cara feia, deveria me ajudar a levar o restante das coisas para mesa. Cara feia pra mim é fome, garota!
- Escuta, você checou a data de validade? Não quero parar no hospital antes de ter a chance de ver você criando juízo!
- E eu vendo você o perder!
Demos risadas de leve ao sentarmos na mesa, até que o silêncio chegou como quem não queria nada. Olhávamos-nos ao comer, tentava invadir os olhos da Anita mas ela era mais rápida do que eu poderia acompanhar. Mas não desisti, não poderia fingir que nada estava acontecendo. E falei:
- E então, o que tem planejado? - Disse antes que ela acabasse de comer e fugisse como o coelho fugia em Alice no país das maravilhas.
- Tudo bem, você não é fácil! – Disse ela reconhecendo e respirando fundo. Anita parecia que ia despejar uma grande surpresa, que pela cara dela não seria fácil de ingeri-la.
- Cecília, você como mais ninguém sabe que não dava pra ficar mais tempo naquela casa. Você sabe do meu relacionamento com a mamãe!
- Sim, eu sei! – A olhei me preparando para o que viesse.
- Você também não tem um bom relacionamento com ela!
- Sim, sim! Ela é difícil às vezes! – concordei sem demora.
- Às vezes? Enlouqueceu? Ela está descontrolada, não podemos mais aguentar tudo o que ela estava fazendo! Eu estava sufocada e mais cedo ou mais tarde isso iria acontecer com você também.
- Anita eu não a culpo! Não somos nada fáceis! Não facilitamos para ela, mamãe teve relacionamentos conturbados e duas filhas para criar sozinha!
- Eu nunca vou entender o porquê você a defende! Ela só sabe nos criticar e criticar a todos! Você não consegue enxergar isso? Está louca, só pode!
- Não é que eu a defenda, a questão é que eu não gosto de julgá-la como você faz! Não sou como ela! Não sou como você, entenda isso!
- Já sei! Você diz isso porque acha que é adotada e que ela a fez um favor de dar-lhe um teto!
- Não seja estúpida e mimada! Olha me diga em que ponto você quer chegar? – Meu estômago estava revirado de tanta raiva.
Anita engoliu a seco e se conteve antes que a boca lhe traísse e dissesse o que não era apropriado para aquele momento. Abaixou os olhos por uns segundos, respirou fundo e me olhou fixamente nos olhos como não fazia desde quando seu pai havia lhe dito que não a queria para morar com ele e sua nova família.
- As coisas se complicaram com a gente. Desde que eu a acobertei, mamãe estava passando dos limites e eu já não estava mais a suportando com seus abusos. Não valeria tanto a pena só para lhe encobrir! Não conversamos sobre isso ainda, mas acho que a hora é agora. Estamos a sós e não há o que esconder. – Fazia tempo que não a via séria ao ponto de me estremecer os olhos.
O silêncio mais uma vez deu-me um abraço, não queria falar sobre esse assunto, pois me doía. Não queria relembrar o que havia acontecido antes de viajarmos. Mas não havia outra forma de encerrar aquele assunto se não falando sobre. Anita não iria sossegar enquanto não arrancasse algumas palavras.
- Podemos falar disso outra hora? – Pedi quase suplicando.
- Não quer saber por que viemos?
- Não foi para passarmos um mês de férias?
-Você sabe que não! Ou eu iria trazer fotos da família para não sentir medo de fantasmas?! - E eu estava certa, estava certa de que Anita me trouxe fugida de casa.
- Tudo bem, você quer saber o que realmente aconteceu?
- Isso é no mínimo o que você me deve!
- Eu não sabia o que fazer, não poderia contar para ninguém e quando a dona Lívia achou aquele teste de farmácia no lixo... – Interrompeu-me Anita corrigindo-me.
- Meu lixo!
- Tá, no seu lixo! – Corrigi-me - Eu não tive coragem de dizer a ela que eu estava grávida!
- Até esse ponto eu entendi! O que eu não consegui entender como ele foi parar no meu lixo! O que você pretendia?
- Desculpe tudo bem? Eu ia fazer o teste no meu quarto, mas a mamãe estava saindo do quarto dela e a única coisa que me veio à cabeça foi entrar no seu quarto! – menti. – Eu não podia mais esperar, aquela dúvida estava me matando e resolvi fazer ali mesmo!
- E por que não me avisou o que estava acontecendo? Em vez disso preferiu pegar-me de surpresa e afirmar com toda convicção que o teste era meu quando mamãe o achou?! Não poderia ao menos ter me pedido ajuda primeiro? – Perguntou-me desconfiada.
- Eu estava nervosa, sem falar que ela o achou poucas horas depois que eu o fiz. Como eu iria adivinhar que era dia de lixo? Você estava chegando quando ela o encontrou e naquele momento não tive mais como fugir. – menti outra vez, pois nem eu mesmo entendi porque fiz aquilo tudo.
O silêncio nos deu uma pausa, não conseguia olhá-la nos olhos, pois os olhos são tagarelas e falam mais do que deviam. Eu não me arrependi de tê-la usado e não me arrependi de ter mentido. Eu queria fazer, eu queria ter provocado tudo, por mais que eu ganhasse nada com tudo isso. Talvez uma satisfação. Pensei. Mas do quê? Estava me sentindo perdida por não me reconhecer, quanto mais mentia para Anita, mais excitação eu tinha. A sensação de ter o controle da situação e fazer Anita acreditar em cada palavra, eu não conseguia parar e nem queria.
Pela primeira vez estava sendo leve comigo mesma, tão natural que cheguei a pensar que talvez fosse o ambiente, ou poderia ser a falta da Lívia me dizendo o que devo pensar ou com quem deveria andar. Anita me observava de esguelha e suspirando baixinho, estava acreditando em tudo que eu havia lhe dito. Pobre Anita, ela merecia ter sido comunicada, ninguém gosta de ser surpreendida dessa forma. Mas me mostrou que ela é leal as pessoas que ela ama. E eu sou uma delas. Anita veio em minha direção me oferecendo um abraço e sem maldade abracei-lhe com gosto.
- Eu não poderia e nem iria desmentir para mamãe, porque somos irmãs e uma ajuda à outra, certo? – Disse-me no ouvindo soando inocência até o último minuto.
Anita levantou-se levando a louça sofisticada e suja para máquina de lavar louças. Enquanto eu recolhia o resto para devolver a cozinha. Anita se achava esperta, mas ela não me enganava. Ela havia se aproveitado da nossa conversa para fugir do que estava me escondendo. Mas eu achei melhor dar-lhe um pouco mais de espaço, pois a conversa havia sido pesada para que continuássemos uma próxima da outra. Ajudei-lhe a enxugar e a guardar tudo em um silêncio que me parecia mais um colo de mãe. Anita permaneceu calada e voltou a ler o seu livro na sala de estar enquanto me dirigia ao meu quarto.