sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Introdução: Doença Permeável.

Durante um longo tempo tentei buscar uma elevação de ser um ser humano admiravel ou sentir-se especial no olhar de alguém, mas hoje já nem sei definir a ideia de ser diferente das outras pessoas. Eu sempre entendi a necessidade das pessoas de querer ser lembrado, visto como um bom exemplo pra alguma coisa, e de auto-afirmação coletiva principalmente nas redes sociais. Então cheguei a conclusão que somos todos iguais certo? Louca? Louquinha? Mas será que explica todos os meus erros? Todas as minhas atitudes?

Muitas das vezes acordava com memorias frescas como um sentimento, em algumas situações em uma saudade antiga, uma lembrança misteriosa ou uma presença inexplicavel. Ironico pensar como nunca senti a minha própria presença, assistindo minha vida como expectadora. Sempre que me olhava no espelhos em momentos diversos era como se eu visse as sobras da minha alma saindo da minha matéria. 
"Diagnostico médico Leon Hirzman:
- Sucide personality, resulting in Boderline lateral."
- Isso é que o ele pensa de mim? Obscuridade doentia?!
Minha vida está virada de cabeça para baixo, mas a quem estou enganando, ela sempre foi assim. Só que ninguém havia me mostrado isso de uma forma tão seca.
O que seja! Não irá me tornar outra pessoa diferente, as coisas não irão se ajeitar! O que eles pensam em fazer? Jogar-me em uma clínica de repouso com muitos bastardos?! Ou me dopar com remédios?! Não acredito que isso vá funcionar. 
Em alguns pontos a serem costurados no meu cérebro, questiono-me se algumas vezes eu estive consciente, ou se já estive inconsciente em tal maneira de me cegar e me esquecer da minha infância, da minha adolescência, das quedas de bicicletas, ou do primeiro beijo. Mas agora a única coisa que consigo lembrar é do primeiro funeral em que eu fui.
Morte, morte, morte, morte... Esta palavra, que significa acontecimento natural da vida bate no meu juízo em forma de relógio, "tic tac" sem parar. Deixa-me anestesiada de todo o caos ao meu redor, me faz ficar frente a frente com minha alma. E faz de encontro o meu corpo com minha alma, fazendo assim eu me sentir por inteira como um eclipse.
De alguma forma eu entendo que isso não seja normal. Mas o que é normal? Se o doutor Leon Hirzman diz que tenho “TPL” (transtorno de personalidade limítrofe), então o meu “outro eu” terá que entrar em contato comigo e informar-me quando ele for aparecer. Vou o convidar para ir a um funeral qualquer dia.
Faço-me uma pergunta que nunca fiz -“o que exatamente estou fazendo?” - Por algum motivo eu não quero parar, nem ao menos tentar explicar. É algo que não se controla, é algo que não se diz a ninguém e nem a si mesma, que nem deveria ser discutido. A loucura.
Os meus sentimentos simplesmente tomam conta de tudo, sem deixar que por um segundo faça sentido as coisas que eu faço, de um jeito que desperta minhas ideias mais sombrias. Gosto de expor minhas expressões mesmo que elas tenham consequências que não consigo controlar.
Não posso ser culpada por algo que não tenho noção. Não admitiria que alguém me invadisse de tal maneira a me julgar louca. Outra coisa que não havia mencionado é não suportar a minha necessidade de mudança radical, não tenho palavras pra expressar o quanto eu preciso ser uma pessoa diferente a cada dia. 
Não sei quais dessas personalidades eu me encaixo melhor. O desgaste emocional é desconfortável. Passei até sentir medo da falta de controle. Me intriga a forma que as pessoas têm de agir em diversas situações, as formas como elas pensam em resolver seus problemas. 
As relações interpessoais banais são minhas favoritas. Só de imaginar entrar na cabeça de qualquer pessoa e saber o que ela está pensando, ou saber que eu posso leva-la a fazer qualquer coisa. Isso é instigante.
Mas agora as pessoas tem motivo de tentar sentir a mesma coisa que eu sinto, mas nunca, jamais saberão como é viver dentro da minha cabeça, do meu ponto de vista narcisista eu sei o que todos querem, só não podem abusar do meu diagnóstico. 
Penso eu que muitos gostariam de poder fazer algo que seja absurdo e experimentar como seria a sensação de estar louco, como se apaixonar pelo próprio irmão, ou sentir amor por um morto que nunca conheceu, ou até mesmo gostar de estar na companhia da morte. 
Mas eles não podem, não devem, porque não tem o meu diagnóstico para justificar o que supostamente fariam sem precisar sentir culpa. Sem que a sociedade torça o nariz.
O uso da hipocrisia cega àquelas pessoas que se dizem inocentes as deixa confusas e as fazem praticar o uso excessivo de estupidez. Bem, é o que parece ser! Todos querem algo que justifique seus comportamentos mal educados e irresponsáveis.
Agora eu estou aqui, presa em uma sala com muitos brinquedos, desenhos estranhos de figuras imaginativas de alguma criança demente. Fico irritada com cada tic tac desse relógio ridículo na parede. 
O doutor está demorando de propósito, pois sabe que terá rosquinhas de graça enquanto minha mãe estiver aqui, paparicando-o. Penso em toda essa situação e levo-me a pensar em algo estranho e inovador.
Eu estou achando que me arrependo de algumas coisas que eu fiz, que eu disse, será que isso é um sintoma de que não estou completamente desumana? Farei essa pergunta ao doutor quando ele olhar nos meus olhos e afirmar com o canto da boca sujo com resíduos da cobertura das rosquinhas e dizer que tudo que eu já fiz é de se preocupar.

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