sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Capítulo 03 - O Dono do quarto misterioso.

No corredor não havia passado pela minha cabeça de olhar o que havia através das outras portas, mas uma delas, a que ficava no final do corredor me chamou mais atenção, o trinco com desenhos gravados como detalhe, pareciam-me letras difíceis de decifrar. Eu estava cansada ainda da viagem e me recuperando da última conversa tensa que tive com minha irmã. Retirei-me e fui para meu quarto onde era um lugar do qual não queria sair nunca mais. 
Ao voltar para o quarto ascendi à luz e expulsei todas as sombras da escuridão que havia se apossado do local. As cortinas estavam mais calmas, o vento entrava com elegância e íntimo do lugar, fazia frio o que me fazia estranhar, pois a cidade era extremamente quente pelo dia. Um deserto paradisíaco. Fui à varanda para tomar um ar do qual havia me escapado poucos minutos atrás. Observei que a luz do quarto vizinho estava acesa, havia uma pasta grande, preta com capa grossa e um notebook ligado em cima da mesa da varanda ao lado do cinzeiro com um cigarro aceso, o que me fez pensar que poucos minutos alguém iria aparecer. 
Todo aquele mistério me deixou com a vontade de fumar para acompanhar o cinzeiro que fumava sem notar. Fui até a escrivaninha onde se encontrava uma caixinha dourada, com símbolos indianos, da qual a fiz de porta cigarros. Peguei um em especial feito para relaxar que ganhei do Jonas na noite em que ficamos. Jonas era o namorado da Natasha, uma amiga da Anita que vez ou outras saíamos todos juntos. Mas Jonas sempre se mostrava incomodado com a Natasha pelo seu jeito exibido. Jonas sempre me olhava quando a Natasha estava ocupada demais com minha irmã falando do quanto a vida dela era injusta. 
Uma noite Jonas e eu ficamos sozinhos em casa enquanto Anita levava Natasha para observar o quanto a vida ainda tinha para ser interessante. Eu gostava do Jonas, ele era uma cara legal e envolvente. Não me arrependo de ter me envolvido com ele, embora muitas coisas saíram do controle. Jonas me procurou mesmo depois de eu ter engravidado, mandava bilhetes pela Anita, telefonava, me mandava e-mails, mas eu não queria formar uma família, nem ao menos aguentar Anita se juntando com a Natasha para me fazer sentir mal com o acontecido.
Ascendi o cigarro na varanda enquanto relembrava momentos dos quais queria esquecer e apagar. Seria impossível apagar a memória? Ser outra pessoa e criar o próprio destino? Eu poderia passar a noite me fazendo perguntas do tipo. Até que um cara foi à varanda ascendendo outro cigarro, ele me olhou surpreso e bem atento. Na mesma hora engasguei, pois o efeito daquele cigarro de erva daninha era dos bons. O olhei com precisão enquanto tentava conter o embalo da torce. 
Sem nos mover, seu olhar penetrava no meu e me tomava à mente, decifrava todos os enigmas sem se quer ter o trabalho de me conhecer, seu olhar ao chegar aos meus olhos ardia e queimava até a pele e as veias. Minha respiração lenta e o coração um pouco agitado me faziam respirar uma vida que ainda não tinha conhecido e inspirar a minha sem restrições. Seus olhos me lembravam os olhos da Capitu, de como Bentinho de Dom Casmurro os descreviam “Olhos de ressaca”. Mas para os deles era literalmente ressaca, pois não havia dúvidas de que bebia aquele conhaque todas as noites. 
Ele fumava o cigarro com a mão esquerda enquanto segurava o isqueiro na mão direita, a fumaça saía como uma dança hipnotizante. Seu cabelo bagunçado tinha um charme especial, pois caíam um pouco nos olhos o que me parecia um mistério não solucionado. Sua boca escondida por conta da barba, um labirinto que poderia fazer qualquer um ter o prazer de se perder. Aparentava que que ele não fazia a barba já havia semanas. Eu me sentia anestesiada por estar diante daquele estranho, meu corpo estava correspondendo a toda aquela turbulência que seus olhos me lançava.
Aquela luz vagando com sonolência pelo compartimento do quarto deixava exposto que eu estava fascinada por todo aquele mistério que me foi imposto. Embora estivesse ficando tarde e eu cansada não queria interromper aquele momento, me sentia confortável. Não me sentia assim por muito tempo, seus olhos não me davam nenhuma fuga, me prendiam conversando comigo mentalmente, sem dúvidas seus olhos estavam me contando coisas que eu estava gostando de senti-las. O cigarro havia acabado, e nossa sintonia também, sentou-se de frente pra mim, abriu um livro de capa azul com uma figura que não se podia ver bem, pois estava escuro e confesso que tinha um pouco de miopia. Eu tive a impressão de que estava silencioso sem aqueles olhos fixos para mim.
Com aquela sua leitura perturbadora e inquietante fiz minha deixa e entrei fechando a porta da varanda e as cortinas dançarinas. Fui em direção ao banheiro, coloquei a água para encher a banheira. Enquanto escovava os dentes, observei os meus olhos pelo espelho do armário do banheiro e a sensação de que me perdi pelo percurso de todo o deletério em que se encontrava minha vida naquele momento. Mas poderia ser apenas que os meus olhos colaram naqueles olhos e por lá fiquei.
 Um gole gélido de pasta caiu-me a garganta a dentro. Depois de um longo tempo dentro da banheira, meus dedos engelhados e minha pele afogada em todos aqueles maus entendidos na minha vida. Era hora de reagir no meio de tanta desordem, vesti-me para ir dormir antes que tivesse uma convulsão de mal gosto e maus pensamentos. Desliguei a luz do quarto junto com meus olhos e cai em uma profundidade em que meu corpo pesava e minha mente vazava todas as minhas lembranças em um espaço complexo e lotado de pessoas sem rostos. Elas me seguiam enquanto eu tentava achar uma direção no meio do nada, não havia chão, não havia céu, plano de tempo e espaço. 
Um deserto em um nada. Meu corpo se arrastava, pois estava perdendo meus sentidos e antes que pudesse notar já estava em outro universo paralelo em que eu ainda estava vivendo na realidade. Foi quando meu celular tocou e eu acordei em uma sonoridade desagradável, o relógio marcava 4:50 da manhã e ainda pareciam 22 horas da noite. A ligação era do Jonas, ele havia deixado uma mensagem de voz, meu coração que estava quase parando saltou como uma bomba relógio e partiu para os batimentos mais impulsivos. Meu estômago revirava e fui de encontro com a privada da qual desabafei um pouco de ânsia. Absorvi muito da minha energia mental para que alguma coisa me viesse a mente, deitei-me um pouco no chão do banheiro que estava gelado, desinflamando todas as minhas feridas expostas em uma ligação. 
Lembrei daquele encontro que tive a algumas horas atrás, corri para a varanda e por mais que eu não acreditasse ele ainda estava lá, lendo um universo em forma de livro. Deixei a porta entreaberta e fui molhar um pouco a garganta que estava morta de tanta seca. Passei pela sala de jantar e me arrepiei lembrando da má digestão que tive com Anita. Bebi a água como quem toma uma tequila, pois não queria perder nenhum momento do show que estava à minha espera na varanda. Corri até a varanda e ele estava em pé absurdamente à minha espera. Seu corpo parado era mais expressivo do que o de Lucinda, uma bailarina que estudou comigo a um tempo atrás em um colégio de freira. 
Meus olhos deslizavam-se em torno de seu corpo, o sol nascia nos banhando de glória. Ele me soltou um sorriso caloroso que me incendiou a alma junto com o sol. Eu não sabia do que se tratava aquele sorriso, mas me deu forças para encarar assuntos mal resolvidos que me perseguiam com ligações durante as madrugadas. Fechei a porta e tomei coragem para atender as ligações de Jonas, não sabia ao certo o que dizer mas sabia que era preciso. Já eram 5h 30m da manhã e Jonas ainda insistia em ligar, a verdade é que não queria atendê-lo. Esperei alguns minutos para ver se ele não desistia, mas uma coisa positiva em Jonas era que ele era insistente com aquilo que ele queria. Atendi e não disse uma só palavra.
Eu podia ouvir seu suspiro, acho que nem ele mesmo sabia o que falar, até nisso Jonas me entendia. Ele sabia que não tinha o que dizer, que não precisava nada ser dito até então, a não ser que estivesse preparado para encarar qualquer resposta minha. E eu para responde-lo com toda franqueza que estava guardada em mim. Aquela ligação era intensa por nada ter sido dito, seu suspiro já me dizia muita coisa, até pareceu que ele escutou meu gole inapropriado e tomou como deixa e desligou.
Aquela ligação mexeu comigo e todos os ossos do meu corpo, meus pulmões lutavam entre si e o ar me escapava, pensei que fosse desmaiar. Depois de quase morrer de susto me pus a dormir de novo, não queria ter que lidar tão cedo com Anita e com Jonas e até mesmo com a descoberta do dono do quarto vizinho.  Estava me sentindo exausta ainda com tantas novidades e outras nem tanto.

Capítulo 02 - O Apartamento.

Dei um paço à frente para entrar no apartamento nº 7, levantei os olhos ao entrar e de repente me veio uma lembrança que eu nunca tive, como se eu já estivesse naquele lugar. Como se eu tivesse vivido ali em algum momento. Ou presenciado algo ou iria presenciar naquele lugar. Veio-me uma estranha vontade de chorar, não sabia se era de tristeza ou de felicidade. Algo que doía a garganta, os olhos e o peito esquerdo com um palpite agudo que não podia aguentar. Larguei as malas naquele momento com uma precisão e no mesmo instante me veio uma dor forte na cabeça. Anita me olhava atônita como quem não estava entendendo nada. 
- Você está bem? – Me olhou expressiva.
- Sim, foi só uma tontura! Acho que foi minha pressão, deve ter baixado! – menti.
- E por que está chorando? 
- Apenas frescura, senti saudade de casa! – menti novamente.
- Credo! Do que sentiu falta? Da arrogância daquela sabe tudo ou do discurso falso moralista dela? – Disse Anita se exaltando – Às vezes não te entendo, garota!
- Já falei que não gosto que fique o tempo todo me chamando de “garota” – Ela tinha o dom de me irritar, acho que isso a satisfazia por hora. Anita queria se diferenciar da mamãe, mas na verdade agia como ela vez ou outra.
- Ok, me desculpe! Não precisa ficar assim, eu hein! Mas vamos deixar de lenga lenga e vamos começar a arrumar essa bagunça! Amanhã cedo o síndico vem aqui e temos que estar com tudo arrumado. 
Franzi o cenho tentando encaixar as coisas, minha irmã não estava saindo de férias, pensei. Para quê mais ela estaria trazendo todas as nossas coisas, e iria dar-se o trabalho de arrumar as coisas para que o síndico do prédio viesse até aqui? Mesmo que fosse apenas para apresentar-se isso não seria necessário. Ele já poderia ter se dado o trabalho de nos receber, no mínimo. A menos que ela estivesse de mudança. Fiquei com medo de pensar em mais suposições e fui me apressando em busca de um quarto para mim.  
O apartamento era simples e prático. Ao entrar podia-se ver a sala de jantar, que ficava no começo da sala logo no canto, ao lado esquerdo. A mesa de jantar era de vidro com uma pequena toalha bordada em cima, também havia um jarro simétrico com lírios dentro que ficava bem no centro. Ao lado da porta, um pouco mais afastado da mesa ficava uma espécie de bar, onde havia um balcão com diversas bebidas, copos e taças para drinks, e bancos altos para socializar. 
Entrando mais à frente junto com a sala de jantar ficava a sala de estar, era um ambiente agradável. O sofá ficava de frente a uma estante, onde se encontravam livros, uma tv e uns enfeites interessantes com bonecas russas e budistas. Com certeza a pessoa que morava ou morou naquele lugar acreditava em coisas de outra cultura e religião. E na parede da sala havia uma janela enorme com cortinas longas, com a cor igual à de um sorvete de creme. A vista ficava de frente a um pequeno prédio de quatro andares, parecido com o prédio da frente que eu havia visto pouco mais cedo ao chegar. Também com varandas em cada andar, como este. Não se podia ver muito, pois o prédio impedia que pudesse ver algo mais além do que um pedaço da rua e todo o restante que minha visão conseguisse enxergar.
 Avistei uns bares no final da rua que ficavam de frente a lavanderia da família Silva, da qual era chamada, pois estava escrito em uma placa. Naquele ambiente que me dava paz com as paredes quase brancas, sem vida. A mobília era de vidro e madeira escura, o que me levava a acreditar que alguma pessoa que estivesse passando por algo místico no auge da vida solitária morava lá, ou morou. Ou então apenas o dono do imóvel o decorou assim para que cobrasse mais caro, pois tudo me parecia muito sofisticado. 
No lado direito havia uma porta de frente para a sala, onde ficava a cozinha. A cozinha parecia daquelas de programa de culinária, quase completa, pois a diferença era que ela era real e não um cenário de estúdio de filmagem. Era toda branca e tinha um balcão para preparar o que fosse. Atrás do balcão ficava um fogão seis bocas, e havia armários embutidos com as portinhas de acrílico de cor preta. A torneira era bem prática, tinha uma alavanca pequena que ao levantá-la abria e ao abaixa-la a fechava. A última vez que tinha visto uma dessas foi na casa da Fernanda, uma garota esnobe e riquinha que estudou comigo no segundo ano do ensino médio a um tempo atrás. 
O que me parecia era que quanto mais olhava os compartimentos do imóvel mais me levava a acreditar que algum ricaço morava lá. Ao voltar para sala havia um corredor ao lado esquerdo com cinco portas onde ficavam os quartos. Fui andando com as malas, pois já não aguentava mais. Estava cansada da viagem. Minha irmã escolheu um quarto que ficava do lado esquerdo, depois de uma porta. Onde se encontrava suas coisas e ela às decidindo onde guarda-las. Anita é bem indecisa o que a diferencia da dona Lívia e de mim. 
Abri a primeira porta que ficava do lado do quarto da Anita, lá ficava o banheiro o que me fazia subtrair as opções de quartos. Abri a primeira porta do lado direito e ao entrar fiquei deslumbrada do quanto o quarto era bonito. Fiquei boquiaberta de tão encantada que eu estava, tanto que deu até má vontade de olhar o restante de portas que existiam no corredor. Pois já havia me decidido qual seria meu quarto.
- Então, te agradou? – Disse Anita me pegando de surpresa com meu deslumbre.
- Que susto! Você tá brincando comigo? Anita, ele é perfeito! – Recompondo-me do susto.
- Garota assustada, relaxa! Eu te falei que você iria gostar! Eu te conheço muito bem, garota! – Disse ela, me chamando da forma que detestava de propósito. Ignorei-a, pois já não me importava naquele momento em que me encontrava.
- Temos dinheiro suficiente para pagar esse apartamento durante um mês? – A interroguei invasivamente e desconfiada.
- Não vamos falar disso agora, você me prometeu arrumar tudo antes! Não iriei abrir a boca antes que arrume a sua mudança! Vou fazer algo para comermos, está ficando tarde e não quero ouvir reclamações da minha comida. 
- Pode deixar... Até porque quando estou com fome como até pedra! – Disse caçoando-a por vingança.
- Fique sabendo que minha comida não leva pedra, garota. 
Saiu pela porta esbarrando em mim e derrubando minhas malas e mais uma vez me chamando para a briga, mas estava sem nenhuma vontade de sequer mover um músculo do meu corpo e nem ao menos respondê-la. Estava apenas querendo observar todo aquele lugar que me atravessava como um fantasma atravessa a parede. Perguntando-me como iria ser os dias diante do que estava à minha espera. Do que poderia acontecer se eu desse mais um passo para frente ou jorrasse uma palavra para alcança-la.
O quarto era bem bonito, ao lado esquerdo ficavam umas prateleiras de madeira clara, quase branca, embutida na parede e lá havia livros de autores desconhecidos de minha sabedoria.  Havia uma escrivaninha que tomava a metade da parede. A parede era toda branca como o resto do imóvel, deduzi. No meio do quarto, ao lado da porta ficava uma cama de casal, que por sinal era muito macia. E do outro lado do quarto ficava o guarda-roupa de cinco portas embutido na parede.  
O guarda-roupa era bastante espaçoso, não conseguia entender para quê alguém precisaria de algo tão grande e espaçoso. Com ele havia uma surpresa, pois a quinta porta era um banheiro. O banheiro não era muito grande, mas o suficiente para caber uma pia com armários, um Box e uma banheira no final. Admiti para mim mesma que dessa vez minha irmã tinha acertado na escolha, embora fosse difícil de cair à ficha que eu iria passar um mês naquele paraíso. 
Não havia janelas no quarto, mas havia duas portas de vidro que estavam escondidas debaixo de cortinas pesadas. Elas se abriam empurrando-as para lateral de cada lado, que dava acesso a uma varanda com duas parte uma coberta e a outra descoberta, com três poltronas e uma mesinha de centro.  Era um lugar perfeito. E nunca havia visto algo igual, embora faltasse vida. Conclui que o dono daquele apartamento era alguém que não gostava de expressar-se ou então era desiludido com a vida, com flores e com as cores.
Ao mesmo tempo em que eu estava feliz de estar ali, estava preocupada por ter embarcado nessa aventura. Pois me parecia que não tínhamos dinheiro para pagar por aquele apartamento. Mesmo que fosse apenas para passar um mês. Estava quente e escurecendo, deixei as portas da varanda aberta para que entrasse a luz do pôr do sol e vento por acaso. Comecei a desfazer as malas e arrumar tudo, antes que minha irmã viesse aqui de surpresa outra vez e me perturbasse. Estava tão cansado que me deitei na cama e a única coisa que meu corpo desejava era descansar por alguns minutos. Fechei os olhos e permiti-me a tirar um cochilo. 
Com um borrão na memória, despertei desconsolada, meu corpo estava flutuando no ar, não conseguia mexer meus braços e pernas. Estava como uma estátua. Desesperei-me e com todas as forças tentei me mexer, sem sucesso. Estava dura como uma pedra. Assustei-me, não conseguia falar, não conseguia ouvir nada tentei chamar por Anita, mas não conseguia. Meu coração acelerava a cada susto que levava, sentia calafrios que pareciam agulhas espetando no centro das minhas costas e iam deslizando até a minha nuca, sentia pontadas na ponta do dedo do pé.  Quanto mais tentava gritar, mais estranha e rouca soava minha voz, ninguém aparecia. 
Ouvi um barulho estranho, eram as cortinas agitadas com o vento que entrava audaciosamente pela varanda. Tudo não havia passado de um sonho estranho, acordei com um alívio daqueles que se sente quando se está com medo. Levantei-me ainda digerindo o susto, minhas pernas tremiam e não sabia se era do medo ou porque estava um frio desconsolante. A escuridão tomava de conta do quarto, o rádio relógio marcava oito e meia da noite. Havia cochilado por três horas, o que parecia ter sido bem menos, pois foi tudo tão rápido que poderia jurar que havia acontecido de verdade. Fui até a varanda respirar um pouco de ar que havia estado ausente desde cedo. Eu estava sufocada.
Ascendi um abajur pequeno que havia no canto da varanda, que iluminava o suficientemente uma parte da varanda com uma luz fosca. Ao observar o prédio que ficava de frente a minha varanda havia um quarto que parecia estar tão próximo que se podia ver como era por dentro, uma parte dele. A varanda era menor que a minha, havia uma mesa, duas cadeiras de descanso e um violão encostado na parede. A porta estava aberta e se podia ver a parede branca do quarto com umas pinturas surrealistas penduradas, havia respingos de tinta e um cavalete com uma tela em branco, tintas, pincéis de diversos tamanhos e outros materiais que estavam em cima de uma escrivaninha redonda que ficava próximo a varanda. 
Via-se a ponta da cama e uma pilha de livros no chão ao lado com uma caneca azul em cima. O quarto estava escuro, apenas com um feixe de luz que vinha do além. Deveria ser um abajur, que ficava longe do meu alcance. O quarto sem dúvidas tinha vida própria. Imaginei um homem com a cara de um escritor falido, viciado em café e em cigarros, pois havia um cinzeiro em cima da mesa da varanda e que aos finais de semana tomava do melhor conhaque e do melhor baseado. Que através dos seus delírios surreais criava suas obras sem lembrar de como as pintou. Ou então morava apenas uma mulher divorciada, sem filhos e iludida com as cores.
Propus-me a ligar a luz e terminar de organizar algumas das minhas coisas que ainda estavam na mala, em cima da escrivaninha que mais parecia uma mesa de jantar para seis pessoas. Ao terminar meu estômago gritava como se estivesse brigando comigo. O cheiro de comida invadia todos os compartimentos do meu quarto e os dos vizinhos também, pensei, pois estava de matar qualquer um. Rendi-me e fui sem perder mais tempo à cozinha, a mesa estava posta. Ao chegar ao destino de tanta matança alimentícia, na cozinha minha irmã estava concentrada lendo um livro com a capa amarela e com nome vermelho, se chamava “Da vida à vivê-la”.  
- Nada mal! – Falei pegando-a de surpresa.
- É apenas lasanha congelada, estava na geladeira! Acredita nisso?
- Eu não acreditava em muitas coisas, até hoje. Como esse apartamento e como conseguiremos pagá-lo. – Cutuquei-a esperando alguma reação, mas Anita não se deixava levar.
- Depois falamos sobre isso, porque eu não estou me aguentando em pé de tanta fome! – disse escapando. E retrucou. - Em vez de ficar me olhando com cara feia, deveria me ajudar a levar o restante das coisas para mesa. Cara feia pra mim é fome, garota! 
- Escuta, você checou a data de validade? Não quero parar no hospital antes de ter a chance de ver você criando juízo!
- E eu vendo você o perder! 
Demos risadas de leve ao sentarmos na mesa, até que o silêncio chegou como quem não queria nada. Olhávamos-nos ao comer, tentava invadir os olhos da Anita mas ela era mais rápida do que eu poderia acompanhar. Mas não desisti, não poderia fingir que nada estava acontecendo. E falei:
- E então, o que tem planejado? - Disse antes que ela acabasse de comer e fugisse como o coelho fugia em Alice no país das maravilhas.
- Tudo bem, você não é fácil! – Disse ela reconhecendo e respirando fundo. Anita parecia que ia despejar uma grande surpresa, que pela cara dela não seria fácil de ingeri-la. 
- Cecília, você como mais ninguém sabe que não dava pra ficar mais tempo naquela casa. Você sabe do meu relacionamento com a mamãe!
- Sim, eu sei! – A olhei me preparando para o que viesse.
- Você também não tem um bom relacionamento com ela!
- Sim, sim! Ela é difícil às vezes! – concordei sem demora.
- Às vezes? Enlouqueceu? Ela está descontrolada, não podemos mais aguentar tudo o que ela estava fazendo! Eu estava sufocada e mais cedo ou mais tarde isso iria acontecer com você também.
- Anita eu não a culpo! Não somos nada fáceis! Não facilitamos para ela, mamãe teve relacionamentos conturbados e duas filhas para criar sozinha! 
- Eu nunca vou entender o porquê você a defende! Ela só sabe nos criticar e criticar a todos! Você não consegue enxergar isso? Está louca, só pode!
- Não é que eu a defenda, a questão é que eu não gosto de julgá-la como você faz! Não sou como ela! Não sou como você, entenda isso!
- Já sei! Você diz isso porque acha que é adotada e que ela a fez um favor de dar-lhe um teto! 
- Não seja estúpida e mimada! Olha me diga em que ponto você quer chegar? – Meu estômago estava revirado de tanta raiva.
Anita engoliu a seco e se conteve antes que a boca lhe traísse e dissesse o que não era apropriado para aquele momento. Abaixou os olhos por uns segundos, respirou fundo e me olhou fixamente nos olhos como não fazia desde quando seu pai havia lhe dito que não a queria para morar com ele e sua nova família. 
- As coisas se complicaram com a gente. Desde que eu a acobertei, mamãe estava passando dos limites e eu já não estava mais a suportando com seus abusos. Não valeria tanto a pena só para lhe encobrir! Não conversamos sobre isso ainda, mas acho que a hora é agora. Estamos a sós e não há o que esconder. – Fazia tempo que não a via séria ao ponto de me estremecer os olhos.
O silêncio mais uma vez deu-me um abraço, não queria falar sobre esse assunto, pois me doía. Não queria relembrar o que havia acontecido antes de viajarmos. Mas não havia outra forma de encerrar aquele assunto se não falando sobre. Anita não iria sossegar enquanto não arrancasse algumas palavras. 
- Podemos falar disso outra hora? – Pedi quase suplicando.
- Não quer saber por que viemos? 
- Não foi para passarmos um mês de férias? 
-Você sabe que não! Ou eu iria trazer fotos da família para não sentir medo de fantasmas?!  - E eu estava certa, estava certa de que Anita me trouxe fugida de casa.
- Tudo bem, você quer saber o que realmente aconteceu?
- Isso é no mínimo o que você me deve!
- Eu não sabia o que fazer, não poderia contar para ninguém e quando a dona Lívia achou aquele teste de farmácia no lixo... – Interrompeu-me Anita corrigindo-me.
- Meu lixo! 
- Tá, no seu lixo! – Corrigi-me - Eu não tive coragem de dizer a ela que eu estava grávida!
- Até esse ponto eu entendi! O que eu não consegui entender como ele foi parar no meu lixo! O que você pretendia?
- Desculpe tudo bem? Eu ia fazer o teste no meu quarto, mas a mamãe estava saindo do quarto dela e a única coisa que me veio à cabeça foi entrar no seu quarto! – menti. – Eu não podia mais esperar, aquela dúvida estava me matando e resolvi fazer ali mesmo!
- E por que não me avisou o que estava acontecendo? Em vez disso preferiu pegar-me de surpresa e afirmar com toda convicção que o teste era meu quando mamãe o achou?! Não poderia ao menos ter me pedido ajuda primeiro? – Perguntou-me desconfiada.
- Eu estava nervosa, sem falar que ela o achou poucas horas depois que eu o fiz. Como eu iria adivinhar que era dia de lixo? Você estava chegando quando ela o encontrou e naquele momento não tive mais como fugir. – menti outra vez, pois nem eu mesmo entendi porque fiz aquilo tudo.
O silêncio nos deu uma pausa, não conseguia olhá-la nos olhos, pois os olhos são tagarelas e falam mais do que deviam. Eu não me arrependi de tê-la usado e não me arrependi de ter mentido. Eu queria fazer, eu queria ter provocado tudo, por mais que eu ganhasse nada com tudo isso. Talvez uma satisfação. Pensei. Mas do quê? Estava me sentindo perdida por não me reconhecer, quanto mais mentia para Anita, mais excitação eu tinha. A sensação de ter o controle da situação e fazer Anita acreditar em cada palavra, eu não conseguia parar e nem queria. 
Pela primeira vez estava sendo leve comigo mesma, tão natural que cheguei a pensar que talvez fosse o ambiente, ou poderia ser a falta da Lívia me dizendo o que devo pensar ou com quem deveria andar. Anita me observava de esguelha e suspirando baixinho, estava acreditando em tudo que eu havia lhe dito. Pobre Anita, ela merecia ter sido comunicada, ninguém gosta de ser surpreendida dessa forma. Mas me mostrou que ela é leal as pessoas que ela ama. E eu sou uma delas. Anita veio em minha direção me oferecendo um abraço e sem maldade abracei-lhe com gosto. 
- Eu não poderia e nem iria desmentir para mamãe, porque somos irmãs e uma ajuda à outra, certo? – Disse-me no ouvindo soando inocência até o último minuto. 
Anita levantou-se levando a louça sofisticada e suja para máquina de lavar louças. Enquanto eu recolhia o resto para devolver a cozinha. Anita se achava esperta, mas ela não me enganava. Ela havia se aproveitado da nossa conversa para fugir do que estava me escondendo. Mas eu achei melhor dar-lhe um pouco mais de espaço, pois a conversa havia sido pesada para que continuássemos uma próxima da outra. Ajudei-lhe a enxugar e a guardar tudo em um silêncio que me parecia mais um colo de mãe. Anita permaneceu calada e voltou a ler o seu livro na sala de estar enquanto me dirigia ao meu quarto.

Capítulo 01 - A mudança.

Em 05 de abril de 2011, por volta das 2 horas da tarde estávamos minha irmã e eu na estrada, havíamos chegado poucas horas antes no aeroporto e alugamos um carro temporariamente enquanto nos alojávamos em alguma parte daquela cidade. Ainda me lembro do quanto estava quente e ventilado. O lugar mais quente que eu havia estado.
Minha irmã estava dirigindo estrada abaixo e o mais o estranho é que estava calada, misteriosa e vez ou outra me olhava com seus olhos grandes e verdes, com o cabelo ondulado voando na cara por causa do vento que entrava pela janela.
Estávamos saindo de férias a caminho de paz. Eu estava incomodada com o fato de Anita estar calada, fiquei tentada a perguntar o que ela estava me escondendo, pois ela não era de estar com a boca fechada quase nunca. Quando menos esperava ela desligou o som do carro que estava tocando as musicas cafonas da rádio local.
- Está preparada? – Finalmente a Anita abriu a boca.
- O que você está planejando? – Perguntei desconfiada, pois a cabeça da minha irmã é um vulcão que quando lhe explode as ideias, às executa sem cerimônia. E eu sabia que ela estava aprontando alguma de suas atrapalhadas. Santo Deus!
Paramos em um bairro simpático que transbordava “take easy” ao ponto de despertar inquietação. Paramos em frente a um prédio com uma estrutura simples, com traços históricos, com tons leves, era o lugar perfeito.
Era misterioso, simpático, havia quatro andares e um porteiro com cara de bunda olhando para rua. Era o típico de lugar que me fazia imaginar que tipo de pessoas morava naquele prédio, e que histórias se passaram naquele cenário.
- Então é aqui, nessa cidade que vamos passar nossas férias? – Fiz uma pergunta retórica, pois já sabia da resposta.
- Você vai se acostumar e vai gostar, garota! – E ainda me deu um sorriso malicioso ao ponto de me despertar preocupação.
Desceu do carro, e foi tirar as nossas coisas que estavam no porta-malas, que inclusive eram muitas, parecia ser uma mudança. Observei bem o lugar e me fiz um questionamento, não entendi porque eu iria me acostumar com um lugar se nós iríamos apenas passar uns dias.
- Cecília, vai esperar chegar o inverno ou o quê para descer? Suas coisas não vão sair sozinhas do carro! E quando descer desça com o pé direito para começarmos bem!
“Começarmos bem” o quê? São apenas umas férias! Desci colocando meu pé esquerdo no chão, pois o direito não me interessava, oras... Nesse lugar, quem precisa de sorte quando se já está na merda?! Até porque gosto de desafiar a sorte! Mas observando bem todo o ambiente que parecia mais um cenário de filme com o nome “Tentarei sobreviver, se possível”, não era tão ruim assim.
O céu azul, limpo, sem nuvens, ventoso, porém estava um dia quente. Ou aquele lugar era um inferno ou aquele lugar era um inferno, de tão quente. Mas se a Anita disse que eu ia gostar me dispus a creditar. Fui até o porta-malas para levar minhas coisas para o apartamento, olhei para o porteiro que me olhava com aparência suspeita querendo dizer algo, até que apontou para o outro lado da rua.
A esnobe da Anita havia carregado as malas para o prédio do outro lado da rua, acho que minha irmã não sabe a diferença entre direita e esquerda. Aposto que ao descer, confundiu-lhe os pés e desceu com o esquerdo também, querendo ou não, temos muitas coisas em comum por desastre da natureza.
Ao atravessar a rua notei que havia uma lavanderia tradicional, lembrei-me da minha casa, na minha rua havia uma dessas também. Minha mãe e a minha irmã devem gostar de lavar roupas sujas, sempre que estou com visitas uma delas as lavam muito bem, não me estranham velhos hábitos das duas.
Chegando ao outro lado da rua, onde estava o resto das outras malas, no prédio onde supostamente iríamos passar aqueles dias senti um elefante nas minhas costas, mas na verdade era minha cabeça cheia de pensamentos. O prédio onde íamos passar as férias era um tanto diferente do que eu havia pensado, ele era diferente do pequeno e charmoso prédio do outro lado da rua. Esse já era mais moderno, sete andares, com tons neutros, com varandas em cada andar, portaria com um interfone.
Antes que eu tocasse o interfone, o porteiro me surpreendeu abrindo o portão pequeno com um simples botão. Eu o olhei pela janelinha da portaria e ele fez um gesto para que eu empurrasse o portão, e abriu-lhe a boca com os dentes amarelados de tanto tomar café. O olhei de volta e dei-lhe um sorriso amarelo para que combinasse com seus dentes.
Ao entrar havia um pequeno jardim com algumas flores e dois bancos na lateral da entrada. Mais à frente era a recepção, no lado esquerdo havia um armário embutido na parede que servia para guardar correspondência dos inquilinos, cada compartimento dele continha os números de cada apartamento. Ainda no lado esquerdo mais à frente era o elevador e ao lado dele havia uma porta que dava acesso ao estacionamento, que ficava atrás da recepção. No lado direito havia um sofá encostado na parede, em frente ao elevador. Ao lado do sofá ficava uma mesinha com revistas de fofocas e o restante da parede em cima, ocupava um espelho enorme que tomava quase toda a parede.
O elevador abriu a porta, era a Anita com a expressão corporal exausta.
- Vou buscar o restante das coisas que ficaram no carro! Coloquei as coisas na sala, já escolhi meu quarto!
- Ahhh... Muito obrigada por me esperar, mademosielle!
- Ah para, deixa de drama! Tem dois quartos para você escolher! Você irá gostar deles! – Disse soltando um sorriso falso e me entregou um pedaço de papel com o número do andar e do apartamento por escrito.
“4 andar, apart. 7”, com esse garrancho nota-se que Anita não é boa de caligrafia como também não é boa para arranjar um apartamento. Entrei no elevador. Olhei para os botões que eram todos brancos, e um vermelho para emergência caso ele emperrasse ou coisa do tipo. Era de se esperar ele aparentava ter mais idade do que todo o bairro.
Eu estava distraída com o botão de emergência que não notara a presença de Anita segurando a porta do elevador com a expressão de reprovação. Eu sabia que estava assim por causa do meu sarcasmo, não podia evitar!
- Vamos vai, aposto que você está até feliz por dentro de termos dado uma escapadinha da mamãe!
- Eu estou oras... Só não sei o que você está aprontando!
- Ok! Quando arrumarmos tudo, prometo te dizer o que está acontecendo! – Prometeu-me Anita com um quê de mistério inabalável.
Suspirei um pouco mais aliviada, até porque é encrenca confiar nela. Mamãe havia nos deixado passar o mês de férias aqui. Porém Anita tem muitos problemas com a dona Lívia, as duas desde quando eu era pequena se batiam de frente. Lembro-me de quando eu tinha cinco anos de idade e a Anita tinha dez na época, nós fomos à praia e minha irmã correu para longe! Deixou todos aflitos à procura dela.
Mamãe a deixo um mês de castigo. Ela está sempre tentando desafiá-la, eu entendo! A mamãe não é muito fácil de lhe dar. Também tenho problemas com ela, porque ela tenta me fazer ser igual a ela, ou diferente da Anita. Mas a verdade é que sou diferente das duas, não me apego a rótulos como a minha irmã e nem julgo ninguém como minha mãe costuma fazer.
Anita é uma garota que transborda juventude, geniosa, um pouco até vaidosa demais da conta. Mas ela é do bem e bem bonita por sinal! Alta, magra, cabelos longos e castanhos, ondulados, olhos verdes, pele bronzeada e um corpo bonito. Ela puxou a mamãe quando era mais nova.
Mamãe é uma pessoa mais realista do que a Anita, uma pessoa que teve pai militar. Não deve ser fácil. Teve a Anita quando tinha seus 25 anos, exatamente a idade da Anita agora. Casou assim que ela nasceu e me teve cinco anos depois.
Dona Lívia passou de preocupada para neurótica. Acho eu que ela desconta em mim a rebeldia da Anita. Ela acha que minha irmã faz minha cabeça pra se voltar contra ela. Mas a verdade é que ela ficou assim depois do seu divórcio com o pai da Anita.
Pirou e teve um caso com um homem que o conheceu em uma noite em um bar. Esse homem era meu pai, mas nunca ninguém ouviu falar dele. Pelo menos Anita jura que não sabe de nada, e mamãe é um túmulo.
Se não pareço com nenhuma das duas, só posso ter puxado esse senhor. Que se resume a ninguém. Elas são diferentes de mim, não só em personalidade, mas também fisicamente. Chego a pensar que fui adotada! Dona Lívia fica irritada quando falo isso, mas Anita sempre desconfiou, e eu também.
Ao chegar ao quarto andar, Anita apressou-se em carregar o restante das coisas para o apartamento que estava com a porta aberta. Por um instante eu fiquei com medo de dar um passo à frente, ou jorrar uma palavra para alcançá-la.
 Apenas queria que ela me explicasse logo tudo aquilo. Pois ela trouxe tantas coisas que já não dava mais para me esconder o que estava acontecendo.
Anita me olhava da porta, esperando que eu fosse de encontro com ela e o tal apartamento.

Introdução: Doença Permeável.

Durante um longo tempo tentei buscar uma elevação de ser um ser humano admiravel ou sentir-se especial no olhar de alguém, mas hoje já nem sei definir a ideia de ser diferente das outras pessoas. Eu sempre entendi a necessidade das pessoas de querer ser lembrado, visto como um bom exemplo pra alguma coisa, e de auto-afirmação coletiva principalmente nas redes sociais. Então cheguei a conclusão que somos todos iguais certo? Louca? Louquinha? Mas será que explica todos os meus erros? Todas as minhas atitudes?

Muitas das vezes acordava com memorias frescas como um sentimento, em algumas situações em uma saudade antiga, uma lembrança misteriosa ou uma presença inexplicavel. Ironico pensar como nunca senti a minha própria presença, assistindo minha vida como expectadora. Sempre que me olhava no espelhos em momentos diversos era como se eu visse as sobras da minha alma saindo da minha matéria. 
"Diagnostico médico Leon Hirzman:
- Sucide personality, resulting in Boderline lateral."
- Isso é que o ele pensa de mim? Obscuridade doentia?!
Minha vida está virada de cabeça para baixo, mas a quem estou enganando, ela sempre foi assim. Só que ninguém havia me mostrado isso de uma forma tão seca.
O que seja! Não irá me tornar outra pessoa diferente, as coisas não irão se ajeitar! O que eles pensam em fazer? Jogar-me em uma clínica de repouso com muitos bastardos?! Ou me dopar com remédios?! Não acredito que isso vá funcionar. 
Em alguns pontos a serem costurados no meu cérebro, questiono-me se algumas vezes eu estive consciente, ou se já estive inconsciente em tal maneira de me cegar e me esquecer da minha infância, da minha adolescência, das quedas de bicicletas, ou do primeiro beijo. Mas agora a única coisa que consigo lembrar é do primeiro funeral em que eu fui.
Morte, morte, morte, morte... Esta palavra, que significa acontecimento natural da vida bate no meu juízo em forma de relógio, "tic tac" sem parar. Deixa-me anestesiada de todo o caos ao meu redor, me faz ficar frente a frente com minha alma. E faz de encontro o meu corpo com minha alma, fazendo assim eu me sentir por inteira como um eclipse.
De alguma forma eu entendo que isso não seja normal. Mas o que é normal? Se o doutor Leon Hirzman diz que tenho “TPL” (transtorno de personalidade limítrofe), então o meu “outro eu” terá que entrar em contato comigo e informar-me quando ele for aparecer. Vou o convidar para ir a um funeral qualquer dia.
Faço-me uma pergunta que nunca fiz -“o que exatamente estou fazendo?” - Por algum motivo eu não quero parar, nem ao menos tentar explicar. É algo que não se controla, é algo que não se diz a ninguém e nem a si mesma, que nem deveria ser discutido. A loucura.
Os meus sentimentos simplesmente tomam conta de tudo, sem deixar que por um segundo faça sentido as coisas que eu faço, de um jeito que desperta minhas ideias mais sombrias. Gosto de expor minhas expressões mesmo que elas tenham consequências que não consigo controlar.
Não posso ser culpada por algo que não tenho noção. Não admitiria que alguém me invadisse de tal maneira a me julgar louca. Outra coisa que não havia mencionado é não suportar a minha necessidade de mudança radical, não tenho palavras pra expressar o quanto eu preciso ser uma pessoa diferente a cada dia. 
Não sei quais dessas personalidades eu me encaixo melhor. O desgaste emocional é desconfortável. Passei até sentir medo da falta de controle. Me intriga a forma que as pessoas têm de agir em diversas situações, as formas como elas pensam em resolver seus problemas. 
As relações interpessoais banais são minhas favoritas. Só de imaginar entrar na cabeça de qualquer pessoa e saber o que ela está pensando, ou saber que eu posso leva-la a fazer qualquer coisa. Isso é instigante.
Mas agora as pessoas tem motivo de tentar sentir a mesma coisa que eu sinto, mas nunca, jamais saberão como é viver dentro da minha cabeça, do meu ponto de vista narcisista eu sei o que todos querem, só não podem abusar do meu diagnóstico. 
Penso eu que muitos gostariam de poder fazer algo que seja absurdo e experimentar como seria a sensação de estar louco, como se apaixonar pelo próprio irmão, ou sentir amor por um morto que nunca conheceu, ou até mesmo gostar de estar na companhia da morte. 
Mas eles não podem, não devem, porque não tem o meu diagnóstico para justificar o que supostamente fariam sem precisar sentir culpa. Sem que a sociedade torça o nariz.
O uso da hipocrisia cega àquelas pessoas que se dizem inocentes as deixa confusas e as fazem praticar o uso excessivo de estupidez. Bem, é o que parece ser! Todos querem algo que justifique seus comportamentos mal educados e irresponsáveis.
Agora eu estou aqui, presa em uma sala com muitos brinquedos, desenhos estranhos de figuras imaginativas de alguma criança demente. Fico irritada com cada tic tac desse relógio ridículo na parede. 
O doutor está demorando de propósito, pois sabe que terá rosquinhas de graça enquanto minha mãe estiver aqui, paparicando-o. Penso em toda essa situação e levo-me a pensar em algo estranho e inovador.
Eu estou achando que me arrependo de algumas coisas que eu fiz, que eu disse, será que isso é um sintoma de que não estou completamente desumana? Farei essa pergunta ao doutor quando ele olhar nos meus olhos e afirmar com o canto da boca sujo com resíduos da cobertura das rosquinhas e dizer que tudo que eu já fiz é de se preocupar.