sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Capítulo 03 - O Dono do quarto misterioso.

No corredor não havia passado pela minha cabeça de olhar o que havia através das outras portas, mas uma delas, a que ficava no final do corredor me chamou mais atenção, o trinco com desenhos gravados como detalhe, pareciam-me letras difíceis de decifrar. Eu estava cansada ainda da viagem e me recuperando da última conversa tensa que tive com minha irmã. Retirei-me e fui para meu quarto onde era um lugar do qual não queria sair nunca mais. 
Ao voltar para o quarto ascendi à luz e expulsei todas as sombras da escuridão que havia se apossado do local. As cortinas estavam mais calmas, o vento entrava com elegância e íntimo do lugar, fazia frio o que me fazia estranhar, pois a cidade era extremamente quente pelo dia. Um deserto paradisíaco. Fui à varanda para tomar um ar do qual havia me escapado poucos minutos atrás. Observei que a luz do quarto vizinho estava acesa, havia uma pasta grande, preta com capa grossa e um notebook ligado em cima da mesa da varanda ao lado do cinzeiro com um cigarro aceso, o que me fez pensar que poucos minutos alguém iria aparecer. 
Todo aquele mistério me deixou com a vontade de fumar para acompanhar o cinzeiro que fumava sem notar. Fui até a escrivaninha onde se encontrava uma caixinha dourada, com símbolos indianos, da qual a fiz de porta cigarros. Peguei um em especial feito para relaxar que ganhei do Jonas na noite em que ficamos. Jonas era o namorado da Natasha, uma amiga da Anita que vez ou outras saíamos todos juntos. Mas Jonas sempre se mostrava incomodado com a Natasha pelo seu jeito exibido. Jonas sempre me olhava quando a Natasha estava ocupada demais com minha irmã falando do quanto a vida dela era injusta. 
Uma noite Jonas e eu ficamos sozinhos em casa enquanto Anita levava Natasha para observar o quanto a vida ainda tinha para ser interessante. Eu gostava do Jonas, ele era uma cara legal e envolvente. Não me arrependo de ter me envolvido com ele, embora muitas coisas saíram do controle. Jonas me procurou mesmo depois de eu ter engravidado, mandava bilhetes pela Anita, telefonava, me mandava e-mails, mas eu não queria formar uma família, nem ao menos aguentar Anita se juntando com a Natasha para me fazer sentir mal com o acontecido.
Ascendi o cigarro na varanda enquanto relembrava momentos dos quais queria esquecer e apagar. Seria impossível apagar a memória? Ser outra pessoa e criar o próprio destino? Eu poderia passar a noite me fazendo perguntas do tipo. Até que um cara foi à varanda ascendendo outro cigarro, ele me olhou surpreso e bem atento. Na mesma hora engasguei, pois o efeito daquele cigarro de erva daninha era dos bons. O olhei com precisão enquanto tentava conter o embalo da torce. 
Sem nos mover, seu olhar penetrava no meu e me tomava à mente, decifrava todos os enigmas sem se quer ter o trabalho de me conhecer, seu olhar ao chegar aos meus olhos ardia e queimava até a pele e as veias. Minha respiração lenta e o coração um pouco agitado me faziam respirar uma vida que ainda não tinha conhecido e inspirar a minha sem restrições. Seus olhos me lembravam os olhos da Capitu, de como Bentinho de Dom Casmurro os descreviam “Olhos de ressaca”. Mas para os deles era literalmente ressaca, pois não havia dúvidas de que bebia aquele conhaque todas as noites. 
Ele fumava o cigarro com a mão esquerda enquanto segurava o isqueiro na mão direita, a fumaça saía como uma dança hipnotizante. Seu cabelo bagunçado tinha um charme especial, pois caíam um pouco nos olhos o que me parecia um mistério não solucionado. Sua boca escondida por conta da barba, um labirinto que poderia fazer qualquer um ter o prazer de se perder. Aparentava que que ele não fazia a barba já havia semanas. Eu me sentia anestesiada por estar diante daquele estranho, meu corpo estava correspondendo a toda aquela turbulência que seus olhos me lançava.
Aquela luz vagando com sonolência pelo compartimento do quarto deixava exposto que eu estava fascinada por todo aquele mistério que me foi imposto. Embora estivesse ficando tarde e eu cansada não queria interromper aquele momento, me sentia confortável. Não me sentia assim por muito tempo, seus olhos não me davam nenhuma fuga, me prendiam conversando comigo mentalmente, sem dúvidas seus olhos estavam me contando coisas que eu estava gostando de senti-las. O cigarro havia acabado, e nossa sintonia também, sentou-se de frente pra mim, abriu um livro de capa azul com uma figura que não se podia ver bem, pois estava escuro e confesso que tinha um pouco de miopia. Eu tive a impressão de que estava silencioso sem aqueles olhos fixos para mim.
Com aquela sua leitura perturbadora e inquietante fiz minha deixa e entrei fechando a porta da varanda e as cortinas dançarinas. Fui em direção ao banheiro, coloquei a água para encher a banheira. Enquanto escovava os dentes, observei os meus olhos pelo espelho do armário do banheiro e a sensação de que me perdi pelo percurso de todo o deletério em que se encontrava minha vida naquele momento. Mas poderia ser apenas que os meus olhos colaram naqueles olhos e por lá fiquei.
 Um gole gélido de pasta caiu-me a garganta a dentro. Depois de um longo tempo dentro da banheira, meus dedos engelhados e minha pele afogada em todos aqueles maus entendidos na minha vida. Era hora de reagir no meio de tanta desordem, vesti-me para ir dormir antes que tivesse uma convulsão de mal gosto e maus pensamentos. Desliguei a luz do quarto junto com meus olhos e cai em uma profundidade em que meu corpo pesava e minha mente vazava todas as minhas lembranças em um espaço complexo e lotado de pessoas sem rostos. Elas me seguiam enquanto eu tentava achar uma direção no meio do nada, não havia chão, não havia céu, plano de tempo e espaço. 
Um deserto em um nada. Meu corpo se arrastava, pois estava perdendo meus sentidos e antes que pudesse notar já estava em outro universo paralelo em que eu ainda estava vivendo na realidade. Foi quando meu celular tocou e eu acordei em uma sonoridade desagradável, o relógio marcava 4:50 da manhã e ainda pareciam 22 horas da noite. A ligação era do Jonas, ele havia deixado uma mensagem de voz, meu coração que estava quase parando saltou como uma bomba relógio e partiu para os batimentos mais impulsivos. Meu estômago revirava e fui de encontro com a privada da qual desabafei um pouco de ânsia. Absorvi muito da minha energia mental para que alguma coisa me viesse a mente, deitei-me um pouco no chão do banheiro que estava gelado, desinflamando todas as minhas feridas expostas em uma ligação. 
Lembrei daquele encontro que tive a algumas horas atrás, corri para a varanda e por mais que eu não acreditasse ele ainda estava lá, lendo um universo em forma de livro. Deixei a porta entreaberta e fui molhar um pouco a garganta que estava morta de tanta seca. Passei pela sala de jantar e me arrepiei lembrando da má digestão que tive com Anita. Bebi a água como quem toma uma tequila, pois não queria perder nenhum momento do show que estava à minha espera na varanda. Corri até a varanda e ele estava em pé absurdamente à minha espera. Seu corpo parado era mais expressivo do que o de Lucinda, uma bailarina que estudou comigo a um tempo atrás em um colégio de freira. 
Meus olhos deslizavam-se em torno de seu corpo, o sol nascia nos banhando de glória. Ele me soltou um sorriso caloroso que me incendiou a alma junto com o sol. Eu não sabia do que se tratava aquele sorriso, mas me deu forças para encarar assuntos mal resolvidos que me perseguiam com ligações durante as madrugadas. Fechei a porta e tomei coragem para atender as ligações de Jonas, não sabia ao certo o que dizer mas sabia que era preciso. Já eram 5h 30m da manhã e Jonas ainda insistia em ligar, a verdade é que não queria atendê-lo. Esperei alguns minutos para ver se ele não desistia, mas uma coisa positiva em Jonas era que ele era insistente com aquilo que ele queria. Atendi e não disse uma só palavra.
Eu podia ouvir seu suspiro, acho que nem ele mesmo sabia o que falar, até nisso Jonas me entendia. Ele sabia que não tinha o que dizer, que não precisava nada ser dito até então, a não ser que estivesse preparado para encarar qualquer resposta minha. E eu para responde-lo com toda franqueza que estava guardada em mim. Aquela ligação era intensa por nada ter sido dito, seu suspiro já me dizia muita coisa, até pareceu que ele escutou meu gole inapropriado e tomou como deixa e desligou.
Aquela ligação mexeu comigo e todos os ossos do meu corpo, meus pulmões lutavam entre si e o ar me escapava, pensei que fosse desmaiar. Depois de quase morrer de susto me pus a dormir de novo, não queria ter que lidar tão cedo com Anita e com Jonas e até mesmo com a descoberta do dono do quarto vizinho.  Estava me sentindo exausta ainda com tantas novidades e outras nem tanto.

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