sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Capítulo 01 - A mudança.

Em 05 de abril de 2011, por volta das 2 horas da tarde estávamos minha irmã e eu na estrada, havíamos chegado poucas horas antes no aeroporto e alugamos um carro temporariamente enquanto nos alojávamos em alguma parte daquela cidade. Ainda me lembro do quanto estava quente e ventilado. O lugar mais quente que eu havia estado.
Minha irmã estava dirigindo estrada abaixo e o mais o estranho é que estava calada, misteriosa e vez ou outra me olhava com seus olhos grandes e verdes, com o cabelo ondulado voando na cara por causa do vento que entrava pela janela.
Estávamos saindo de férias a caminho de paz. Eu estava incomodada com o fato de Anita estar calada, fiquei tentada a perguntar o que ela estava me escondendo, pois ela não era de estar com a boca fechada quase nunca. Quando menos esperava ela desligou o som do carro que estava tocando as musicas cafonas da rádio local.
- Está preparada? – Finalmente a Anita abriu a boca.
- O que você está planejando? – Perguntei desconfiada, pois a cabeça da minha irmã é um vulcão que quando lhe explode as ideias, às executa sem cerimônia. E eu sabia que ela estava aprontando alguma de suas atrapalhadas. Santo Deus!
Paramos em um bairro simpático que transbordava “take easy” ao ponto de despertar inquietação. Paramos em frente a um prédio com uma estrutura simples, com traços históricos, com tons leves, era o lugar perfeito.
Era misterioso, simpático, havia quatro andares e um porteiro com cara de bunda olhando para rua. Era o típico de lugar que me fazia imaginar que tipo de pessoas morava naquele prédio, e que histórias se passaram naquele cenário.
- Então é aqui, nessa cidade que vamos passar nossas férias? – Fiz uma pergunta retórica, pois já sabia da resposta.
- Você vai se acostumar e vai gostar, garota! – E ainda me deu um sorriso malicioso ao ponto de me despertar preocupação.
Desceu do carro, e foi tirar as nossas coisas que estavam no porta-malas, que inclusive eram muitas, parecia ser uma mudança. Observei bem o lugar e me fiz um questionamento, não entendi porque eu iria me acostumar com um lugar se nós iríamos apenas passar uns dias.
- Cecília, vai esperar chegar o inverno ou o quê para descer? Suas coisas não vão sair sozinhas do carro! E quando descer desça com o pé direito para começarmos bem!
“Começarmos bem” o quê? São apenas umas férias! Desci colocando meu pé esquerdo no chão, pois o direito não me interessava, oras... Nesse lugar, quem precisa de sorte quando se já está na merda?! Até porque gosto de desafiar a sorte! Mas observando bem todo o ambiente que parecia mais um cenário de filme com o nome “Tentarei sobreviver, se possível”, não era tão ruim assim.
O céu azul, limpo, sem nuvens, ventoso, porém estava um dia quente. Ou aquele lugar era um inferno ou aquele lugar era um inferno, de tão quente. Mas se a Anita disse que eu ia gostar me dispus a creditar. Fui até o porta-malas para levar minhas coisas para o apartamento, olhei para o porteiro que me olhava com aparência suspeita querendo dizer algo, até que apontou para o outro lado da rua.
A esnobe da Anita havia carregado as malas para o prédio do outro lado da rua, acho que minha irmã não sabe a diferença entre direita e esquerda. Aposto que ao descer, confundiu-lhe os pés e desceu com o esquerdo também, querendo ou não, temos muitas coisas em comum por desastre da natureza.
Ao atravessar a rua notei que havia uma lavanderia tradicional, lembrei-me da minha casa, na minha rua havia uma dessas também. Minha mãe e a minha irmã devem gostar de lavar roupas sujas, sempre que estou com visitas uma delas as lavam muito bem, não me estranham velhos hábitos das duas.
Chegando ao outro lado da rua, onde estava o resto das outras malas, no prédio onde supostamente iríamos passar aqueles dias senti um elefante nas minhas costas, mas na verdade era minha cabeça cheia de pensamentos. O prédio onde íamos passar as férias era um tanto diferente do que eu havia pensado, ele era diferente do pequeno e charmoso prédio do outro lado da rua. Esse já era mais moderno, sete andares, com tons neutros, com varandas em cada andar, portaria com um interfone.
Antes que eu tocasse o interfone, o porteiro me surpreendeu abrindo o portão pequeno com um simples botão. Eu o olhei pela janelinha da portaria e ele fez um gesto para que eu empurrasse o portão, e abriu-lhe a boca com os dentes amarelados de tanto tomar café. O olhei de volta e dei-lhe um sorriso amarelo para que combinasse com seus dentes.
Ao entrar havia um pequeno jardim com algumas flores e dois bancos na lateral da entrada. Mais à frente era a recepção, no lado esquerdo havia um armário embutido na parede que servia para guardar correspondência dos inquilinos, cada compartimento dele continha os números de cada apartamento. Ainda no lado esquerdo mais à frente era o elevador e ao lado dele havia uma porta que dava acesso ao estacionamento, que ficava atrás da recepção. No lado direito havia um sofá encostado na parede, em frente ao elevador. Ao lado do sofá ficava uma mesinha com revistas de fofocas e o restante da parede em cima, ocupava um espelho enorme que tomava quase toda a parede.
O elevador abriu a porta, era a Anita com a expressão corporal exausta.
- Vou buscar o restante das coisas que ficaram no carro! Coloquei as coisas na sala, já escolhi meu quarto!
- Ahhh... Muito obrigada por me esperar, mademosielle!
- Ah para, deixa de drama! Tem dois quartos para você escolher! Você irá gostar deles! – Disse soltando um sorriso falso e me entregou um pedaço de papel com o número do andar e do apartamento por escrito.
“4 andar, apart. 7”, com esse garrancho nota-se que Anita não é boa de caligrafia como também não é boa para arranjar um apartamento. Entrei no elevador. Olhei para os botões que eram todos brancos, e um vermelho para emergência caso ele emperrasse ou coisa do tipo. Era de se esperar ele aparentava ter mais idade do que todo o bairro.
Eu estava distraída com o botão de emergência que não notara a presença de Anita segurando a porta do elevador com a expressão de reprovação. Eu sabia que estava assim por causa do meu sarcasmo, não podia evitar!
- Vamos vai, aposto que você está até feliz por dentro de termos dado uma escapadinha da mamãe!
- Eu estou oras... Só não sei o que você está aprontando!
- Ok! Quando arrumarmos tudo, prometo te dizer o que está acontecendo! – Prometeu-me Anita com um quê de mistério inabalável.
Suspirei um pouco mais aliviada, até porque é encrenca confiar nela. Mamãe havia nos deixado passar o mês de férias aqui. Porém Anita tem muitos problemas com a dona Lívia, as duas desde quando eu era pequena se batiam de frente. Lembro-me de quando eu tinha cinco anos de idade e a Anita tinha dez na época, nós fomos à praia e minha irmã correu para longe! Deixou todos aflitos à procura dela.
Mamãe a deixo um mês de castigo. Ela está sempre tentando desafiá-la, eu entendo! A mamãe não é muito fácil de lhe dar. Também tenho problemas com ela, porque ela tenta me fazer ser igual a ela, ou diferente da Anita. Mas a verdade é que sou diferente das duas, não me apego a rótulos como a minha irmã e nem julgo ninguém como minha mãe costuma fazer.
Anita é uma garota que transborda juventude, geniosa, um pouco até vaidosa demais da conta. Mas ela é do bem e bem bonita por sinal! Alta, magra, cabelos longos e castanhos, ondulados, olhos verdes, pele bronzeada e um corpo bonito. Ela puxou a mamãe quando era mais nova.
Mamãe é uma pessoa mais realista do que a Anita, uma pessoa que teve pai militar. Não deve ser fácil. Teve a Anita quando tinha seus 25 anos, exatamente a idade da Anita agora. Casou assim que ela nasceu e me teve cinco anos depois.
Dona Lívia passou de preocupada para neurótica. Acho eu que ela desconta em mim a rebeldia da Anita. Ela acha que minha irmã faz minha cabeça pra se voltar contra ela. Mas a verdade é que ela ficou assim depois do seu divórcio com o pai da Anita.
Pirou e teve um caso com um homem que o conheceu em uma noite em um bar. Esse homem era meu pai, mas nunca ninguém ouviu falar dele. Pelo menos Anita jura que não sabe de nada, e mamãe é um túmulo.
Se não pareço com nenhuma das duas, só posso ter puxado esse senhor. Que se resume a ninguém. Elas são diferentes de mim, não só em personalidade, mas também fisicamente. Chego a pensar que fui adotada! Dona Lívia fica irritada quando falo isso, mas Anita sempre desconfiou, e eu também.
Ao chegar ao quarto andar, Anita apressou-se em carregar o restante das coisas para o apartamento que estava com a porta aberta. Por um instante eu fiquei com medo de dar um passo à frente, ou jorrar uma palavra para alcançá-la.
 Apenas queria que ela me explicasse logo tudo aquilo. Pois ela trouxe tantas coisas que já não dava mais para me esconder o que estava acontecendo.
Anita me olhava da porta, esperando que eu fosse de encontro com ela e o tal apartamento.

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